A dor crónica nas costas pede uma avaliação que olha para além do exame.
Na maioria das dores crónicas nas costas, os exames são normais porque a dor já não depende de uma lesão visível: estima-se que os bio-mecanismos expliquem apenas cerca de 10% dos casos. Quando a dor persiste mais de três meses sem causa estrutural, costuma ser mantida por fatores que não aparecem na imagem — sono, stress contínuo, sedentarismo e contextos de vida como tensões em casa ou no trabalho. A dor é real; o que muda é a origem. Tratá-la exige olhar para além do exame.
Se os exames estão normais, a dor é a sério ou "é da cabeça"?
Vou começar pela parte mais importante: a sua dor é real. Quando alguém chega ao meu consultório em Aveiro com uma ressonância "limpa" e meses de dor nas costas, a primeira coisa que oiço é quase sempre a mesma — "será que estou a inventar?". Não está. A dor é uma experiência produzida pelo corpo e pelo sistema nervoso, não uma imagem num exame. O facto de a radiografia ou a ressonância não mostrarem uma causa não significa que não exista sofrimento; significa apenas que a câmara apontou para o sítio errado.
Esta confusão faz muito mal. Pessoas que passam anos a sentir dor e a ouvir "não tem nada" acabam isoladas, frustradas e, muitas vezes, tratadas como se o problema fosse psicológico no sentido pejorativo. Não é isso que digo. Digo que a origem da dor que não passa raramente está só na coluna — e é exatamente por isso que os exames à coluna não a encontram.
Porque é que os exames raramente explicam a dor crónica?
Aqui entra um dado que costuma surpreender quem me procura. Numa revisão publicada no Yale Journal of Biology and Medicine, os autores recordam uma estimativa muito citada na literatura: os bio-mecanismos — a tal hérnia, o desgaste, a "lesão" — explicam apenas cerca de 10% dos casos de dor nas costas. Na grande maioria, a dor é classificada como "inespecífica", ou, numa expressão mais antiga, "de origem obscura".
Isto tem duas consequências práticas. A primeira é que muitas alterações que aparecem nos exames — pequenas protusões, sinais de desgaste, os chamados "bicos de papagaio" — também existem em muitas pessoas que não têm dor nenhuma. Encontrá-las não prova que sejam a causa. A segunda é que, se procurarmos a explicação apenas dentro da coluna, vamos continuar a não a encontrar, por mais exames que se façam. A dor crónica — a que persiste mais de três meses e atrapalha o dia-a-dia — obedece a outra lógica.
O que mantém a dor depois de o problema inicial sarar?
Imagine um alarme de incêndio. No início, dispara porque há fumo — uma lesão, um esforço, uma crise aguda. Com o tempo, porém, o alarme pode ficar mais sensível e continuar a tocar mesmo quando já não há fogo. O sistema nervoso, de certa forma, aprende a dor. É um processo real, físico e estudado: as vias que transmitem e interpretam a dor tornam-se mais reativas, e passa a ser preciso cada vez menos para "disparar".
O que mantém esse alarme ligado? Raramente é uma só coisa. No meu trabalho vejo, repetidamente, o mesmo conjunto de combustíveis: noites mal dormidas, stress que nunca abranda, falta de movimento (ou movimento sempre igual, dia após dia) e um corpo que vive em tensão há demasiado tempo. Nenhum destes fatores aparece numa ressonância. Todos influenciam, e muito, a intensidade da dor que se sente.
Que papel têm o stress, a família e o trabalho na dor que não passa?
Esta é a parte que a ciência tem vindo a iluminar e que mais costumamos ignorar. A mesma revisão do Yale Journal of Biology and Medicine propõe algo simples e poderoso: depois de sair da clínica, a pessoa volta para a sua vida — para casa e para o trabalho. E se nesses contextos houver fontes contínuas de tensão, elas renovam a dor, por mais bem feito que tenha sido o tratamento dirigido ao "mecanismo".
Os autores reúnem estudos que associam à dor crónica nas costas situações como insatisfação conjugal, separações, relações difíceis em casa, perda de emprego, insatisfação no trabalho ou más relações com colegas. Não se trata de culpar ninguém, nem de dizer que a dor "é só do stress". Trata-se de reconhecer que o corpo não separa o que sente do que vive. Uma sobrecarga emocional prolongada mantém o sistema nervoso em estado de alerta — e um sistema em alerta sente mais dor. É biologia, não fraqueza.
Por isso, quando avalio alguém em Aveiro, não pergunto só "onde dói". Pergunto como dorme, como tem sido o último ano, o que mudou na vida quando a dor apareceu ou piorou. Muitas vezes, é aí que está a peça que faltava.
Porque é que tratar só o local da dor muitas vezes não chega?
Se a origem está espalhada — parte no corpo, parte no modo de vida —, tratar apenas o ponto que dói é como secar o chão com a torneira aberta. Alivia no momento, mas a água volta. É a razão pela qual tanta gente me diz "já fiz de tudo": massagens, comprimidos, aparelhos, e a dor sempre a regressar. Não é que esses tratamentos sejam inúteis; é que, sozinhos, não tocam no que mantém o alarme ligado.
A medicação centrada no mecanismo tem aqui um limite importante. Pode reduzir o sintoma durante um período, mas não muda o sono, o stress nem os contextos para onde a pessoa regressa todos os dias. E há um cuidado a ter: o uso prolongado de analgésicos fortes, sobretudo opióides, traz riscos sérios e não resolve a causa. O caminho não é apenas calar a dor — é perceber porque é que ela fala tão alto.
Como é que a Saúde Integrativa aborda a origem da dor?
É exatamente para isto que desenhei o meu trabalho à volta da Saúde Integrativa: tratar a origem, não só o sintoma, integrando quatro pilares que se influenciam mutuamente.
A Gestão Emocional ajuda a baixar o estado de alerta do sistema nervoso — não no sentido de "pensar positivo", mas de o corpo deixar de viver em tensão permanente. A Liberdade de Movimento devolve confiança e capacidade ao corpo, com movimento gradual e variado, porque um corpo que se move com segurança sente menos dor. A Alimentação e o Estilo de Vida — sono, ritmo, pausas, atividade ao longo do dia — sustentam tudo o resto, porque é nesse terreno que a dor crónica se alimenta ou se acalma.
Na prática, não existe uma receita igual para todos. Existe uma avaliação que olha para a pessoa inteira e um plano que trabalha, ao mesmo tempo, o corpo e aquilo que o rodeia. É mais lento do que prometer uma cura num exame — mas é o que, na minha experiência em Aveiro, muda dores que pareciam "não passar".
O que fazer a seguir (e o que esperar de uma avaliação em Aveiro)?
Se os seus exames estão normais e a dor continua, o primeiro passo é parar de a procurar apenas na imagem. Comece por reparar nos seus próprios padrões: como dorme, em que alturas a dor aperta, o que andava a acontecer na sua vida quando ela começou. Mantenha-se em movimento dentro daquilo que tolera — o repouso prolongado costuma piorar a dor crónica, não melhorá-la. E procure uma avaliação que olhe para além da coluna.
Numa primeira consulta comigo em Aveiro, o objetivo não é dar-lhe mais um exame, mas perceber a sua história e identificar o que mantém a dor — para depois construirmos, em conjunto, um plano que trate a origem. Isto não substitui a avaliação do seu médico, sobretudo se houver sinais de alarme como perda de força, dormência importante, febre ou perda de peso inexplicada. Mas, para a dor crónica que "não tem causa nos exames", é quase sempre aqui que está a resposta.
Perguntas frequentes
Se a ressonância está normal, porque é que tenho dor?
Porque a dor crónica raramente depende de uma lesão visível. Os exames mostram a estrutura da coluna, mas não mostram o estado do sistema nervoso, o sono, o stress ou os hábitos — e são esses fatores que, com o tempo, mantêm a dor mesmo quando a imagem está limpa.
A dor crónica nas costas é psicológica?
Não no sentido de ser imaginada. A dor é sempre real. O que a ciência mostra é que fatores emocionais e de vida — stress prolongado, tensões em casa ou no trabalho — mantêm o sistema nervoso em alerta e aumentam a dor. É biologia, não fraqueza nem invenção.
O stress pode causar dor nas costas?
Pode contribuir e, sobretudo, manter a dor. O stress prolongado deixa o corpo em tensão e o sistema nervoso mais sensível, o que faz com que sinta mais dor com menos estímulo. Por isso, gerir o stress faz parte do tratamento da dor crónica, não é um extra.
Devo repetir exames se a dor não passa?
Nem sempre. Repetir exames raramente acrescenta informação quando a causa não é estrutural e pode aumentar a ansiedade. Faz mais sentido se houver sinais de alarme (perda de força, dormência importante, febre, perda de peso). Caso contrário, vale mais avaliar o que mantém a dor.
Referências
- Volinn E, Loeser JD. What are the Origins of Chronic Back Pain of "Obscure Origins"? Turning Toward Family and Workplace Social Contexts. Yale J Biol Med. 2022;95(1):153-163.